quinta-feira, 18 de junho de 2009

MOVIMENTO ESTUDANTIL EM CAICÓ

MOVIMENTO ESTUDANTIL EM CAICÓ: POLÍTICA PELA LIBERDADE

FONTE – SITE HISTÓRIA DO RIO GRANDE DO NORTE

(Por Maria Auxiliadora Oliveira da Silva e Neily Lopes Dutra – concluintes de 2000)

É comum se pensar que ditadura militar de 1964-1985 foi somente morte e tortura. Como se observou durante o regime militar, estabeleceram-se bloqueios ao desenvolvimento político, social e cultural da nação como um todo. No que se refere à educação, os militares abusaram de medidas repressivas em relação a mudanças no ensino, com o intuito de anti-conscientizar, ao ponto de deixar os estudantes num estado de alienação, sem interesse na política e sem espírito de organização grupal, para reivindicarem por melhorias de interesse da classe estudantil. Sobre a educação em Caicó, o professor Brito relata:

“(...) Caicó especialmente sempre se destacou pelo nível cultural das pessoas, e hoje o nível está quase zero, e isso foi resultado da ditadura. Veja, a própria ditadura tirar filosofia, sociologia, por que? Para que o povo não fosse mais organizado. Hoje em Caicó estuda somente o que estudava anteriormente, o nível cultural caiu. Hoje vota-se pior do que votava-se antes e isso tudo é resultado da ditadura”.i

Em Caicó na década de 60 e meados da década de 70, tinha-se um movimento estudantil organizado, participativo na vida política, social e cultural da cidade e havia uma discussão muito grande contra a ditadura militar. A juventude naquela época, principalmente a partir de 1968, era muito empenhada em lutar por melhorias na educação, na política e na sociedade. Havia entre os jovens um certo trabalho de conscientização, de esclarecimento, de noticiar fatos e acontecimentos que não vinham ao público através dos meios de comunicação oficiais, sendo comentados mais através de cachichos.

No dia 1º de abril de 1964, o Presidente da UEC (União Estudantil Caicoense), Paulo Celestino da Costa lançou nota de repúdio ao golpe na Emissora Rural de Caicó e, esta nota era forte porque chamava os militares de “gorilas”. No mesmo instante foram chamados ao Exército Paulo Celestino e Pe. Itan Pereira – diretor da Emissora Rural e do Colégio Diocesano Seridoense – para explicarem o porquê de terem chamado os militares de gorilas. Eles foram advertidos e isto foi uma mostra, ou seja, o primeiro contato com o novo governo que se instalava no país.

A Emissora Rural de Caicó dava espaço aos estudantes para divulgarem seu trabalho, inclusive a UEC tinha um programa próprio, levado ao ar aos domingos. Os líderes estudantis que eram ao mesmo tempo radialistas, trabalhavam de graça, por se empolgarem no trabalho de divulgação, e não raro eles furavam as notícias. Os militares indignados pediam à direção para colocá-los para fora da rádio, mas o bispo de Caicó, que apoiava este trabalho de esclarecimento desempenhado por esses estudantes, segurava-os na rádio.

Quando começou a repressão contra os estudantes no Rio Grande do Norte, os discentes de Caicó que tinham um movimento estudantil muito bem organizado, não sofreram tantas perseguições, até porque o bispo Dom Manuel Tavares tornou-se uma espécie de protetor desses estudantes.

A cidade de Caicó destacava-se no Rio Grande do Norte devido ao seu setor educacional, pela reconhecida qualidade de ensino. Em cada escola havia um grêmio que realizava atividades de formação intelectual, semana cultural, semana estudantil etc. Os grêmios ficavam responsáveis por lançarem os candidatos à presidência da UEC, que sempre fora disputadíssima. A UEC neste período teve presidentes que destacaram-se pelo trabalho desenvolvido, os quais passavam a atuar de radialistas na Rádio Rural como uma forma até de promoção e de alargamento dos horizontes. Entre os presidentes da UEC, um que teve destaque foi Salomão Gurgel Pinheiro, que realizou um reconhecido trabalho no movimento político estudantil em Caicó em plena ditadura militar.

É digno de registrar que, em Caicó, fora realizado o primeiro protesto, ou seja, a primeira manifestação de rua (FOTO 10) contra a ditadura militar no Rio Grande do Norte. Os estudantes de Caicó, liderados por Salomão Gurgel Pinheiro e Ruy Pereiraii, organizaram uma grande passeata para denunciar os abusos da ditadura militar e, em protesto à morte do estudante Edson Luís de Lima Souto, morto em conflito com a PM, no Restaurante Calabouço, no Rio de Janeiro, em março de 1968. Segundo Salomão, saíram concentrações de estudantes do Colégio Diocesano Seridoense, do Instituto de Educação, atual CEJA (Centro Educacional José Augusto), do Educandário Santa Teresinha, da Escola Senador Guerra e da Casa do Estudante, num total de quase 3.500 estudantes reunidos, gritando palavras de ordem, pedindo liberdade e protestando contra o assassinato de Edson Luís. Esta passeata parou na praça da Liberdade, atual praça Dinarte Mariz, onde fora realizado um comício, vindo o protesto terminar no centro da cidade. Nos cartazes da foto abaixo, lia-se: “Estudantes caicoenses na luta contra a opressão”. “(...) Liberdade”. “(...) a bala (...)”.

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